segunda-feira, 6 de abril de 2015

As Posturas dos Obstetras

ESCOLHA SUA EQUIPE!


Parto de Sabrina Ferigatto




Ao longo de alguns anos trabalhando com gestantes e partos, aprendi que no mundo dos nascimentos é assim: 


- EXISTE O OBSTETRA CESARISTA 171

Aquele que engana deliberadamente as pacientes com indicações estapafúrdias de cesariana (veja lista elaborada pela Dra. Melania em: http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/indicacoes-reais-e-ficticias-de.html ). Esse profissional marca cesáreas eletivas com 40 semanas ou menos porque “não pode correr riscos”. Possui “o dia de operar” (toda segunda feira, por exemplo, que é pro pai ter os 5 dias da licença paternidade emendando com o final de semana) e adoram frases de impacto com nuances de terror psicológico como: “o meu objetivo é te entregar um bebê saudável”. Ele diz que faz parto normal, mas gasta metade da consulta para te convencer que o parto é um evento muito arriscado e o corpo humano é uma bomba prestes a explodir. Ele adora contar casos escabrosos de partos normais, mas omite sua estatística pessoal de intercorrências derivadas de uma cirurgia desnecessária de grande porte (e a quantidade de bebês internados na UTIn que nasceram antes de estarem preparados). As pacientes juram que ele também faz parto normal, porque ouviram dizer que a vizinha da prima chegou com o bebê coroando no hospital e ele não empurrou de volta pra fazer a cesárea. Ou então, sabem que com ele só rolam cesáreas, mas pensa que com ela (paciente de muitos anos) será diferente. Infelizmente, a indicação da desnecesárea provavelmente vai acontecer quando a paciente está com a gestação avançada demais para ter coragem de trocar de obstetra.

- EXISTE O OBSTETRA ASSUMIDAMENTE CESARISTA

Aquele que fala na lata que não faz parto normal (seja por que não acredita, não gosta ou não ganha o suficiente pra isso) e manda você procurar outro médico caso insista na idéia de "parir como índia".

- EXISTE O OBSTETRA DESATUALIZADO

Aquele que se formou há 2 ou 3 décadas e até hoje não descobriu que o cordão umbilical não é assassino e que episiotomia não protege o períneo coisa nenhuma. Esse coitado acredita de verdade que está fazendo o melhor para a paciente. Ah, eu falei que ele se formou há 3 décadas? Não, existem muitos recém formados nessa categoria também, que em vez de terem o site da Biblioteca Cochrane nos seus favoritos ainda estão se baseando no bom (?) e velho Rezendão pra basear suas práticas.

- EXISTE O OBSTETRA BEM INTENCIONADO

Aquele que até sabe que parto normal é melhor pra mulher e pro bebê, que até "faz" alguns partos normais (não passa de 50% da sua estatística), mas que na prática deixa muito a desejar para mulheres e casais mais empoderados e exigentes. É aquele que fala: “SE estiver tudo bem podemos TENTAR um parto normal” (como se estar tudo bem fosse uma exceção, e não a regra – frase muito comum para os médicos das categorias anteriores também).

- EXISTE O OBSTETRA "TIPO HUMANIZADO"

Aquele que você podia jurar que é humanizado e altamente radical porque topa alguns parto de cócoras, com doula, às vezes até na água, mas que ainda escorrega em muitos preceitos da humanização, sobretudo no protagonismo da mulher e na Medicina Baseada em Evidências. Por exemplo: não deixa passar de 41 semanas mesmo estando tudo bem e sendo esta a vontade da gestante, interna com poucas horas de bolsa rota, usa muito mais ocitocina sintética ou faz muito mais episiotomias do que deveria, adora fazer um descolamento de membranas ou colocar um “comprimidinho” na vagina para induzir o parto, faz toques excessivos e desnecessários durante a gravidez e o trabalho de parto, manda a mulher prender a respiração e fazer força compriiiiiida, pede um monte de USG desnecessária no final da gestação, diz que a bacia da mulher pode não ser tão boa ou que o bebê está grande demais, etc e tal.

*** Existem os médicos que estão na transição entre a categoria anterior e a próxima ***

- EXISTEM OS OBSTETRAS HUMANIZADOS PRA VALER

Aqueles que realmente acreditam, gostam e bancam o que estão fazendo, estão atualizadíssimos com as evidências científicas mais recentes (e por isso mesmo incentivam que a mulher tenha uma doula), permitem que as gestantes escolham qualquer posição que se sintam confortáveis para parir (nem que pra isso eles tenham que se sentar ou deitar no chão pra pegar o bebê, ou se molhem todos num parto na água) e respeitam o local de parto escolhido pela gestante com gravidez de baixo risco (seja em casa, no hospital ou numa casa de parto). Em geral, esses raros e preciosos profissionais não aceitam fazer cesariana eletiva sem indicação (o que significa que suas taxas de parto normal estão por volta de 80 a 85%), peitando a resistência dos hospitais e o deboche dos colegas médicos, pois seu compromisso é com a mulher, e não com o sistema. Eles informam o casal sobre todos os procedimentos realizados e estão dispostos a extrapolar alguns limites dentro do pressuposto de responsabilidade compartilhada e respeito às escolhas da gestante. Confiam e sabem que a natureza é sábia, que a mulher é poderosa e que o médico só deveria intervir quando necessário. Ou seja, eles possuem a humildade de simplesmente não fazer nada a maior parte do tempo, além de aguardar pacientemente. Para esses, toda a minha admiração e gratidão!

Nesse universo do parto, também existem DOULAS e doulas, PARTEIRAS e parteiras (falo das parteiras formadas e urbanas), PEDIATRAS e pediatras, sem esquecer das parteiras tradicionais (que cuidam de uma parcela específica e significativa da população) e de uma nova categoria que está surgindo agora, que são as parteiras “tipo tradicionais” (!!!). Mas esse é assunto para uma próxima conversa (em breve!).

Por Érica de Paula - acupunturista, doula, educadora perinatal e co-autora do documentário "O Renascimento do Parto".

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