sábado, 2 de abril de 2016

Relato da importância da doula: enquete

Doulas são a força fora do corpo. A confiança quando falta a fé. 
Carinho, amor e acolhimento. O remo, a ponte, o esteio, o pelego.
Doulas não realizam procedimentos mas são imprescindíveis no parto! 
Conte-nos sua experiência com a doula! Participe da enquete no mês de abril!

Link direto para a enquete

Rebeca doulando Daniela - Foto de Daniela Djean


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Cesárea: o que mais marca as mulheres que passam por essa experiência

Conversa paralela no bloco

"Uma imagem sobre a conversa sem sentido que escutei na sala de cirurgia durante a cesariana. Falavam sobre uma suposta fita amarela marcando árvores perto do hospital e especulavam se significava que eles seriam cortadas ou não." 

Um sonho que tive algumas semanas antes da cesariana

Clube do corte – tá na moda!


O excesso de cesarianas faz o procedimento parecer um bem de consumo, uma verdadeira moda, desejável, reproduzível em vários lugares do mundo.

Anestesia raquidiana



A sensação de estar inerte, de não conseguir se mexer no  momento mais importante da gravidez. Os efeitos colaterais, não ver o que está acontecendo, a passividade.

Meu primeiro banho

 


Muita dor e dependência para fazer uma tarefa antes corriqueira.
                          Sorria, você tem um bebê saudável

A sociedade cobra o sorriso acima da dor, da frustração, da fraqueza. Você também se sentiu assim? Impededida ou incompreendida de expressar seus sentimentos após uma cirurgia desejada ou indesejada?
O que Frieda faria?


Anestesiar primeiro e medicar mais tarde. Nenhuma dor resiste à quantidade de medicamentos do pós parto. Será?


"Corte na linha média até a fáscia"
(Trecho do prontuário)


Cirurgia de grande porte, amplamente realizada, mas que oferece 5% de risco de cortar  o bebê. Você sabia?


Espere para ver seu bebê


" Você poderá ir para o quarto e ver seu bebê assim que você puder mover suas pernas." Levou cinco horas e meia para eu "receber o meu bebê". A espera na sala de recuperação, sozinha, sem acompanhante e sem o bebê, sangrando, tremendo, pode ser uma péssima lembrança da cesariana.

Procedimento realizado


Era para ser o momento mais lindo mas se tornou um procedimento médico. Banalizado e nada protagonizado por mãe ou bebê. Separados para sempre, começando ali.

Tremores pós anestesia. Frio congelante.


Ninguém explica o que pode acontecer após a operação, incluindo solidão, medo, frio, dor, tremores, dores de cabeça, coceira...

Memórias que se agarram em mim


Estresse pós traumático. Lembranças da sala de cirurgia. Medo de engravidar de novo. Dificuldade de vínculo com o bebê. Medo de nova cesárea em outra gestação. Lembranças difíceis de superar...

Sangue


Sangue aspirado durante a cirurgia. Sangue na maca. Sangue na cama. Maior perda de sangue. Maior risco de hemorragia...

Pacotes descartáveis




Abrindo de qualquer forma, extraindo o conteúdo, desconsiderando meus desejos.
Mulheres não são embalagens descartáveis de bebês!


Baseado em: https://cesareanart.wordpress.com/

Mania de dilatação



Foto de Aline Fevereiro.
A nossa cultura de parto gira em torno da DILATAÇÃO.
☆ Exames de toque em todas as consultas do pré-natal.
☆ Mulheres preocupadas porque não tem dilatação sendo que nem estão em trabalho de parto.
☆ Mulheres ansiosas porque estão com 1, 2, 3, 4cm de dilatação, sem nenhum sinal de trabalho de parto.
☆ Mulheres desesperadas com os centímetros dilatados, sem trabalho de parto, querendo, inutilmente, adiantar o processo, caminhando, agachando, rebolando...
E tudo por causa do bendito exame de toque, totalmente desnecessário no pré-natal (salvo em caso de suspeita de parto prematuro).
♡ MULHERES,
♡ Recusem o exame de toque no pré-natal.
♡A dilatação antes do trabalho de parto nao quer dizer NADA! Ter alguma dilatação antes do TP não determina a rapidez da evolução do parto.
♡ Uma mulher pode permanecer semaaaaanas com 2cm de dilatação. E quando entrar em TP, pode demorar muitas horas até atingir 10cm. Outra pode estar com o colo grosso e fechado hoje e parir em 2h amanhã. Não há regra.
☆☆☆Esqueçam dilatação fora de TP. Nem em TP ela é primordial.☆☆☆
♡♡♡ O bebê só nasce pela vagina se a mulher passar pelo trabalho de parto toooodo, o que inclui o TP ATIVO (contrações longas e frequentes) e período expulsivo (vontade espontânea de fazer força).



segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Sobre a suposta instalação da "Ditadura do Parto Normal"

1) Se um dia houve uma ditadura, foi a da cesariana. Nos hospitais privados a taxa continua sendo de 80 a 95%. Nos públicos de São Paulo, de 40 a 70% salvas algumas honrosas exceções. Há uma ditadura mesmo. Da cirurgia.
2) Não há uma criminalização da cesariana, mas há um descortinamento das cesarianas criminosas, finalmente. Agora todo mundo sabe que mentiras são ditas entre 4 paredes sem o menor constrangimento. Os planos divulgaram as taxas dos médicos. 100%. Sim, 100%. Ditadura do parto normal foi uma piada de mau gosto.
3) O parto é um ato heroico sim, bem como a amamentação, ambos numa sociedade que desvaloriza os processos fisiológicos e ufaniza os procedimentos cirúrgicos e o uso de mamadeiras e chupetas e complementos.
4) Não fale "emponderamento" por Osiris. É em-poder-amento. E falando em empoderamento das mulheres, finalmente elas estão contando os seus ‪#‎primeiroassédio‬ s, os ‪#‎meuamigosecreto‬ e‪#‎minhacesáreamentirosa‬ e também suas violências obstétricas empurradas goela abaixo. Em-poder-emos duas mulheres, quatro mulheres, mil mulheres!! Que elas possam abrir o bico mesmo!
5) O movimento pela humanização do parto vai continuar estimulando as mulheres a fugirem de suas cesáreas desnecessárias E procurarem uma segunda opinião para avaliação de seus casos. Porque os partos são roubados sim e as mulheres são violentadas sistematicamente dentro de serviços obstétricos sim. Só o cego por conveniência não vê.
6) A exposição de casos específicos por médicos é falta ética e será denunciada no CRM. Médicos anti-éticos Não passarão, até mesmo para valorizarmos os médicos éticos que existem por aí.
7) O parto não é mais importante nem vale mais que o filho e se alguém sugere isso, essa pessoa é uma louca. O fato de uma mulher querer parir quando os plantonistas de um hospital com 85% de cesarianas dizem que ela precisa de uma cesariana eletiva não demonstra que ela valoriza o parto mais do que o filho. Demonstra que os médicos não estão passando mais confiança, porque eles estão praticando uma obstetrícia tosca, feia e mal amada.
8) Triste e revoltante é ver uma médica expor uma paciente fotografando seu prontuário e expondo em rede social.
9) Doulas, obstetrizes, emponderadas [sic], palpiteiros , burocratas da saúde e da justiça etc... tem justificativa sim Pratiquem uma obstetrícia decente, de qualidade, para que as mulheres não precisem fugir dela como o diabo da cruz.
10) Parto não é um ato MÉDICO e HOSPITALAR . Ponto final.

Por Ana Cristina Duarte

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Normal x humanizado: você sabe mesmo a diferença?

A expressão se popularizou, mas muita gente ainda não sabe o que é, afinal de contas, um parto humanizado.

Por Luciana Benatti
Um ambiente acolhedor, com pouca luz e música suave, para deixar a mulher mais à vontade durante o trabalho de parto. Para muita gente, é isso o que diferencia um parto humanizado de um parto normal hospitalar padrão.
Quando se fala em humanização da assistência ao parto, porém, há muito mais coisas em jogo do que a beleza das instalações e a gentileza no trato com as parturientes. Envolve também uma mudança de atitude: respeitar os desejos das mulheres.
“Existem dois tipos de humanismo: o que eu chamo de humanismo superficial, no qual o quarto é bonito e a mãe é tratada de maneira amável, mas a taxa de intervenções não diminui, e o que eu chamo de humanismo profundo no qual a profunda fisiologia do nascimento é honrada”, observa a antropóloga norte-americana Robbie Davis-Floyd num artigo publicado pela revista Midwifery Today em 2007.
Mas a que intervenções exatamente ela se refere? Os procedimentos hospitalares realizados rotineiramente durante o parto são necessários para ajudar no processo natural, de modo a garantir a manutenção da saúde da mãe e do bebê, certo?
Errado. Essa é a primeira questão difícil de compreender: pesquisas científicas mostram que muitas das intervenções médicas praticadas atualmente no parto normal são, na verdade, desnecessárias e prejudiciais. No entanto, continuam sendo feitas. Por quê? Boa pergunta…
O uso rotineiro de enema (lavagem intestinal), de raspagem dos pelos púbicos, de infusão intravenosa (soro) e da posição supina (mulher deitada de barriga para cima) durante o trabalho de parto estão entre as condutas consideradas claramente prejudiciais ou ineficazes e que deveriam ser eliminadas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar disso, fazem parte do protocolo de assistência de muitos hospitais e maternidades, sendo realizadas todos os dias, de forma indiscriminada.
O mesmo vale para para os procedimentos com o recém-nascido: na maioria dos hospitais, logo após o nascimento, os bebês têm as vias aéreas aspiradas pelo pediatra com o uso de sonda, mesmo aqueles que nascem saudáveis e que seriam capazes de eliminar por conta própria as secreções. Por outro lado, o contato pele a pele com a mãe, fundamental para o estabelecimento do vínculo, e a amamentação na primeira hora de vida, preconizada pela OMS, muitas vezes não são priorizados pela equipe.
No parto humanizado, por outro lado, nenhum procedimento é rotineiro: as intervenções são feitas de forma criteriosa e apenas quando realmente necessário.
A segunda questão complexa diz respeito à participação de cada um dos atores na cena do parto. Em nossa cultura, quem costuma ocupar o papel principal é o médico, que “estudou para isso”, como se ouve muito por aí. Nessa visão, cabe à mulher uma posição passiva. A última palavra é do profissional, pois o parto é um “ato médico”.
O movimento de humanização do parto, que cresce em várias partes do mundo, tem uma visão diferente: a mulher é protagonista do próprio parto e deve participar ativamente das decisões, em parceria com os profissionais que lhe dão assistência.
No parto humanizado, a mulher é incentivada a se informar e a fazer suas próprias escolhas. Seus desejos são acolhidos e respeitados.
Veja no quadro abaixo algumas das principais diferenças entre o parto normal hospitalar padrão e o parto humanizado.
NormalHumanizado
Pré-natalEm geral, limita-se a avaliar a saúde física da mulher e do bebê. Aspectos emocionais da gestação ficam em segundo plano. Fala-se pouco de parto.Avalia a saúde física da mulher, incluindo todos os exames recomendados pela OMS, e também dá grande ênfase ao preparo emocional da mulher para o parto e a maternidade.
Início do trabalho de partoDificilmente permite-se que a gestação ultrapasse 40 semanas. Quando atinge esse “limite”, a mulher é internada para a indução do parto com medicamentos ou vai para a cesárea porque “passou da data”.Costuma ser espontâneo, ainda que o tempo de gestação ultrapasse as 40 semanas (com consultas e exames mais frequentes após 41 semanas).
Ruptura da bolsaEm geral é provocada pelo médico, com uma espécie de agulha, para acelerar o trabalho de parto.Costuma acontecer naturalmente, de forma espontânea, ao longo do trabalho de parto.
Duração do trabalho de partoÉ acelerada com ocitocina sintética (hormônio), que intensifica as contrações.Respeita-se o ritmo natural do nascimento, que varia muito de um parto para o outro.
Posição durante o trabalho de partoDeitada na cama, de barriga para cima. Um cinta presa na barriga da mulher e ligada a um aparelho (cardiotocografia) monitora as contrações e os batimentos cardíacos do bebê.A mulher tem liberdade para escolher e alternar posições. Pode sentar na bola de parto, deitar na banheira, ficar de quatro sobre cama, acocorar-se nas contrações etc. Mais sobre posições para o parto, aqui.
AnestesiaNo atendimento particular, é um procedimento de rotina (para todas as mulheres, ao atingirem um determinado estágio de dilatação). No serviço público, não está disponível tão facilmente.É uma escolha da mulher, que é incentivada a dar preferência a métodos naturais de alívio da dor, como massagens, banhos mornos e o suporte físico e emocional de uma doula (acompanhante de parto). Quando a mulher decide pelo alívio medicamentoso, é feita uma analgesia, que tira a dor, mas não os movimentos.Mais sobre analgesia, aqui.
LocalHospital (sala de parto ou centro cirúrgico).Hospital (suíte de parto normal, com chuveiro, banheira e bola de parto), em casa de partos ou em casa (apenas para gestantes de baixo risco).
Episiotomia (corte no períneo)Procedimento de rotina, feito em praticamente todos os partos normais.Realizada raramente, apenas se absolutamente necessário. Mais sobre episiotomia e preparação perineal para o parto, aqui.
Contato com o bebê após o nascimentoO cordão umbilical é cortado imediatamente, o bebê é mostrado para a mãe e levado pelo pediatra para uma série de exames e intervenções, como a aspiração das vias aéreas superiores e a aplicação de colírio de nitrato de prata.Se o bebê nasce bem (o que é o caso da maioria), a prioridade do pediatra é garantir o contato pele a pele do recém-nascido com a mãe. O bebê é apenas enxugado e coberto com panos macios, no colo da mãe. São oferecidas todas as condições para que ocorra a amamentação na primeira hora de vida. A aspiração é feita apenas se for realmente necessário. O cordão é cortado só depois que para de pulsar. Mais sobre atendimento humanizado ao recém-nascido, aqui.
Participação da mulherA gestante tem uma posição passiva diante do processo do parto. É considerada uma “paciente” e, como tal, é esperado que aceite as decisões do médico, que é quem está de fato no comando da situação.Compartilha a tomada de decisões com a equipe responsável pela assistência ao parto, que pode contar com médico ou parteira (enfermeira obstetra ou obstetriz). No segundo caso, o obstetra fica na retaguarda e é acionado apenas se necessário.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Como atender um Parto Humanizado – passo a passo

Crédito da imagem: Kalu Brum
Você, médico ou enfermeira obstetra, está lá de plantão no seu canto. Não aguenta mais aquele papo de quem vai pro paredão do BBB.
Chega a gestante em trabalho de parto. Vamos supor as seguintes condições:
- Fez pré natal e não há nada de anormal
- Ela está em trabalho de parto (contrações efetivas, 2 a 3 contrações em 10 minutos)
Eis o que fazer:
1) Sorria. Apresente-se com um aperto de mão, diga seu nome e sua função na instituição. Cumprimente o acompanhante. Parabenize-a pela chegada do bebê. Só faça elogios. Não faça críticas, nem piadas. Seja simpático e sorridente, sem ser ‘engraçadinho’. E definitivamente essa não é a hora de julgar falta de pré natal, excesso de filhos, de peso ou de pêlos. Nada disso é da sua conta. Lembre-se que você está sendo pago por esse serviço, que aceitou voluntariamente. Lembre-se que, em última instância, são elas que pagam o nosso salário.
2) Deixe-a à vontade e o mais confortável possível, com liberdade de posição, desde essa fase de triagem. Explique que ela pode parar de responder se vier contração. Aguarde as contrações, sempre que vierem, antes de continuar o seu questionário. Pergunte o que precisa, para preencher a ficha da admissão. Ofereça uma camisola da instituição, sem obrigá-la a usar.
3) Peça que aproveite logo após o final de uma contração para se deitar em maca com encosto elevado pelo menos 45º. Diga que tentará ser o mais rápido possível. Instale a cardiotocografia de admissão, explique que é para avaliar os batimentos cardíacos do bebê. Verifique temperatura, pulso e pressão arterial. Tire termômetro e manguito de pressão tão logo termine as medidas. Peça licença para examinar a dilatação. Espere ela concordar. Seja delicado. Use gel lubrificante. Não force o colo. Não tente abrir mais do que já está. Pense em como você gostaria que um profissional examinasse internamente sua esposa, sua irmã, sua filha. Apenas avalie rapidamente, dilatação, esvaecimento, posição e altura. Diga a ela com quantos centímetros ela está de dilatação e dê parabéns, novamente. Diga que ela pode continuar o exame do coração do bebê em qualquer posição, inclusive de pé. Após os 20 minutos necessários, desligue imediatamente o aparelho e, caso esteja tudo bem, informe esse dado. Caso não esteja tudo bem, diga o que o preocupa, e informe que você já vai cuidar disso com a maior rapidez possível.
4) Supondo que ela já esteja com pelo menos 4 cm de dilatação e contrações efetivas, ou seja, na fase ativa do trabalho de parto, instale-a com o acompanhante, de preferência numa sala individual (não coletiva). Mostre onde tem banheiro, água, telefone, local para caminhar, banheiro para o acompanhante, chuveiro, bola, e tudo o que pode ser útil. Se ainda for fase inicial, explique que é complicado internar assim tão precocemente. Incentive-a a voltar pra casa por algumas horas (se for perto) ou a dar um passeio a pé, até as contrações ficarem mais fortes.
5) Não realize lavagem intestinal, nem tricotomia, nem qualquer procedimento de rotina na internação. Não ligue soro com ocitocina. Deixe o trabalho de parto evoluir normalmente. A ocitocina só deve ser utilizada em casos de distócia de progressão. Lembre-se que a ocitocina pode causar anóxia e óbito fetal. Ocitocina não é remédio pra “ajudar”. Ocitocina é uma droga potentísssima e perigosa.
6) Não rompa bolsa, a não ser em caso de distócia de progressão ou de sofrimento fetal (para verificação de mecônio). Deixe que a natureza se encarregue disso. Se nada for feito, a bolsa se romperá naturalmente entre 7 e 10 cm de dilatação, ou durante o período expulsivo. Ruptura artificial da bolsa das água é o maior fator de risco para prolapso de cordão.
7) Examine apenas o necessário. Tirando a ausculta fetal, que é fundamental para sabermos a vitalidade do bebê, não  há porque ficar fazendo toques vaginais de hora em hora. Na fase ativa, podem haver intervalos de até 4 horas entre um toque e outro. Não deixe que mais de um profissional realize o toque. Peça licença. Pergunte se ela prefere que seu acompanhante permaneça ou saia durante o exame. Não assuma que você sabe como ela se sente, nunca! Sempre elogie o progresso, e como ela é forte, e como ela está lidando bem com o trabalho de parto. Se a bolsa estiver rompida, especial cuidado! O parto pode demorar quantas horas for necessário com a bolsa rompida, mas os exames de toque aumentam o risco de infecção.
8) Se for realizar cardiotocografia, não deixe o aparelho ligado por mais de 20 minutos, explique que o alarme não significa problemas, que em geral é porque houve perda do foco pelo aparelho, desligue imediatamente logo após terminado, e dê liberdade de posição durante o exame. Não é necessário que a mulher esteja deitada.
9) Incentive a mudança de posição, deambulação, banho de chuveiro e banheira, uso da bola, descanso em diferentes posições. Não é necessário seguir um circuito pré estabelecido. Explique apenas que ela não está doente e que deve confiar em seu corpo. Explique sobre a importância de não ficar numa só posição o tempo todo. Mostre técnicas de massagem para o acompanhante. Incentive o uso do chuveiro para alívio da dor. Ofereça sucos, água e alimentos.
10) Conforme chegar mais perto do expulsivo, explique os sintomas e peça ao acompanhante que chame caso um desses sintomas seja referido. Não faça dilatação manual do colo, pois esse é o maior fator de risco para laceração de trajeto. Aguarde a evolução natural. Não coloque a mulher “em posição”. Dê liberdade durante o período expulsivo. Dê preferência a posições verticais, como a banqueta de parto, por exemplo. Não é necessário realizar antissepsia dos genitais.
11) Deixe a mulher fazer força conforme sente vontade, não fique guiando, gritando ordens ou pedindo que ela prenda a respiração e faça força comprida. Deixe que ela sabe o que fazer. Bebês nascidos sob manobra de Valsalva têm notas de Apgar em média menores do que os nascidos sob puxos espontâneos. Não fique colocando os dedos na vagina dela para “alargar” o canal. A vagina é tecido mole, não segura o bebê. Se for possível abaixe a luz, deixe alguma música (se ela gostar da idéia), fale baixo. Evite falar, na verdade. Faça apenas a ausculta a cada 10-15 minutos. Lembre-se que desacelerações durante a contração são normais, ainda mais no período expulsivo.
12) Dê tempo ao tempo, lembre-se que o período expulsivo de uma primigesta pode levar até 2 horas, às vezes até mais, desde que esteja havendo progresso e a ausculta esteja boa. Quando o bebê estiver coroando, convide a mulher a sentir a cabeça do bebê com a mão, e assim controlar a força e a expulsão. Proteja o períneo com uma compressa. Não empurre o fundo uterino, nem com a mão, muito menos com o cotovelo. A Manobra de Kristeler pode provocar lesão de fígado, de baço, ruptura uterina, descolamento de placenta, fratura de costela e hematomas, entre outros problemas.
13) Dê tempo para a cabeça subir e descer várias vezes, alongando o períneo. Isso evitará laceração. Não corte episiotomia, por favor. O maior risco de laceração de quarto grau ocorre quando se abre uma episiotomia. Lacerações em geral são pequenas, a maioria nem sutura necessita. Cerca de 70% das mulheres saem com períneo intacto.
14) Após a saída da cabeça, não puxe o bebê. Deixe que a próxima contração traga o resto do corpo. Isso pode levar 5 minutos. Lembre-se que o bebê está sendo oxigenado pelo cordão. O bebê pode nascer sozinho apenas com as contrações uterinas. Receba o bebê com delicadeza, enxugue-o delicadamente, sem esfregar. Sinta a pulsação do cordão, se estiver acima de 100, o bebê está bem. Ainda ligado ao cordão, coloque o bebê em contato pele a pele com a mãe e cubra-o, para prevenir a perda de calor. Não corte o cordão. Espere que ele pare de pulsar. Cerca de 1/3 do volume de sangue do bebê está no cordão e placenta. Deixe que esse sangue vá para o bebê.
15) Com a mãe ainda segurando seu bebê no colo, aguarde a placenta sem tracionar. Verifique apenas que o útero esteja contraído. Isso pode te dar a segurança que você precisa para deixar a natureza cuidar da placenta sem intervenções. Se houve fator de risco para hemorragia pós parto, aplique ocitocina intra-muscular e aguarde.
16) Se for necessário suturar, faça-o com anestesia suficiente para que a mãe não sinta dor. Se ela disser que está doendo, acredite: está doendo. A dor faz aumentar a adrenalina, diminuindo a produção de ocitocina: pior para o aleitamento, pior para a hemorragia pós parto. A amamentação na primeira hora de vida é prioridade e é a melhor forma de prevenir a hemorragia.
17) Após a primeira mamada e o cordão já cortado, pergunte se o pediatra pode examinar. Se possível o exame deve ser feito na própria sala de parto. Se não for possível, peça ao pai para acompanhar o exame. Enxugue melhor o bebê, com delicadeza. Corrija o corte do cordão, se necessário. Não aspire um bebê que respira. Pingue o colírio de escolha, de preferência abandone o nitrato de prata, menos efetivo, cáustico e doloroso. Substitua por antibiótico ocular. Deixe vacinas e vitamina K para as horas seguintes ao parto. Pese e identique o bebê. Devolva o bebê para a mãe imediatamente após o exame e diga a ela os dados relevantes.
18) Leve mãe, bebê e acompanhante para o quarto, na mesma maca, e favoreça o alojamento conjunto.
19) Da série “Um plus a mais”: obstetrizes/enfermeiras obstetras para todas as mulheres; doulas voluntárias e permissão de entrada da doula contratada pela mulher, analgesia peridural para mulheres que esgotaram todas formas alternativas e não farmacológicas de controle da dor do parto; quartos com ambientação agradável; banheira para relaxamento e para o parto na água (aguarde nota sobre como atender um parto na água); uso de vácuo no lugar de fórceps sempre que possível (e necessário, claro).
20) Da série “Nunca é tarde pra lembrar”: residentes e estudantes estão lá para aprender SE e QUANDO a mulher permitir. Mulheres e bebês não são cobaias. Parto não pode ter platéia. Não é humano colocar 6 estudantes observando a vagina de uma mulher. Não é humano colocar 6 estudantes e residentes para meter seus dedos nervosos em vaginas de mulheres com dor, assustadas e embaraçadas. Por favor, tome cuidado com a presença dos estudantes e sempre peça permissão à mulher. Sempre!
Por incrível que pareça, essas atitudes são o que chamamos de “Parto Humanizado”. Para quem achava que parto humanizado envolvia o canto de mantras, a degustação da placenta e todos pelados na banheira, talvez seja uma decepção. Para quem milita pelo direito a um parto tranquilo para todas as mulheres, do SUS ou do sistema privado, é um grande alívio.
Imprima esse texto e entregue isso ao seu obstetra ou ao hospital público onde vai ter o seu bebê. Explique que é apenas isso que você deseja para seu parto.
Ana Cristina Duarte – Obstetriz em São Paulo