sexta-feira, 17 de março de 2017

Relato do nascimento da Alice - Parto Normal após 3 cesarianas

“Quando engravidei da Alice, já experimentava da delícia de ser mãe da Elysa de 14 anos, Danyel de 13 e Yasmin de 5, que vieram ao mundo através de cesáreas marcadas. Nunca tive uma boa visão sobre o parto normal, fui mal informada sobre o assunto e além de vergonha da exposição, só havia ouvido testemunhos de muita dor e desrespeito.

No terceiro mês de gestação da Alice, fui submetida a uma cirurgia de apêndice, senti muitas dores na recuperação e por conta disso,  comecei a pensar em trazer essa criança ao mundo de uma maneira que eu não “entrasse na faca” novamente. O meu desespero era ter que passar por mais uma cirurgia.

Conversei com o meu ginecologista e de cara ele me tirou qualquer possibilidade de ter um parto normal. Disse que o risco de morte era alto por causa das cesáreas anteriores (poderia ocorrer ruptura uterina). Comecei então a ler a respeito e buscar informação sobre a possibilidade de um parto natural após 3 cesáreas. Li muitos relatos de mulheres que conseguiram parir após 2 cesarianas. Porém, achei poucos relatos de parto normal após 3 cirurgias.

Com 32 semanas de gestação eu estava ciente de que nenhum médico toparia essa aventura comigo e para piorar a situação, agora eu conhecia os riscos de uma quarta cesárea, pois estudei muito a respeito. Fiquei noites sem dormir. Entrei em desespero, só chorava e chorava, pensava que ia morrer no parto! Rsrs.

Com 35 semanas minha igreja organizou um chá de fraldas para Alice e lá encontrei uma amiga que havia tido suas duas filhas de parto normal, Paula Charchar, que me perguntou assim:” Você não vai parir nenhum?” Achei muito engraçado essa pergunta, mas a minha resposta não podia ser outra:”Não posso, porque fiz 3 cesarianas e posso morrer!”. Ela insistiu:” Pode sim! Vai morrer nada! Minha irmã é doula e já acompanhou vários partos assim. Conheço um médico que vai topar.” Passou-me o contato dele: dr. Frederico Bravin.

No outro dia, tentei marcar uma consulta, mas a agenda dele estava cheia e eu estava desesperada para saber se ele me daria apoio. Consegui o celular dele e pedi para ele me atender. A princípio, ele disse que não pegava paciente com gestação tão avançada, mas que tiraria todas as minhas dúvidas no consultório. Minha primeira consulta foi com 36 semanas. Foi uma longa consulta, tinha muitas dúvidas. Saí de lá muito confiante de que eu era capaz de parir. Eu era capaz de romper com a timidez e o medo da dor também!

Logo liguei para a Rebeca Charchar e pedi o apoio dela como doula, apoio que foi essencial para mim. Todavia, Rebeca mora em Minas Gerais e eu no Espírito Santo. Passei as últimas semanas me fortalecendo, conversei muito com Rebeca, ouvi vários relatos.

Meu esposo estava uma pilha, achava muito arriscado, pois estava comigo em todas as vezes que fui desencorajada pelos médicos. Tentou me fazer desistir a todo custo. Minha família não sabia do nosso plano de tentar o parto normal. Aliás, quase ninguém sabia. Percebi que ouviria muitas palavras de desencorajamento, portanto guardei meu novo sonho no meu coração. Somente quem estaria comigo no grande dia sabia. Eu mesma, desencorajei várias pessoas que queriam ter um parto normal, sempre tive horror! Minha família perguntava se eu já havia marcado a cesa e eu nunca menti. Apenas dizia que não.

Então chegou o grande dia: 05/07/2015! Com 39 semanas e 4 dias, por volta de 1 hora da manhã senti as primeiras contrações. Foram 3 contrações de 10 em 10 minutos e já engataram as contrações ritmadas de 5 em 5 minutos, com duração de 33 a 38 segundos. Tomei banho e liguei para Rebeca que havia chegado na minha cidade no dia anterior. Liguei para o dr. Frederico. Ás 3:50 da manhã, peguei a Rebeca e a minha sogra e fomos para o hospital, pois o meu médico já havia orientado acerca de passar todo o trabalho de parto no ambiente hospitalar, sendo monitorada.

No caminho as contrações ficaram mais rápidas e fortes, eu já não aguentava marcar e me lembro de ter passado no pedágio aos berros, com a Rebeca sempre me apoiando com massagem. Estava sem posição, a barriga endurecia muito e a cólica era fortíssima. Chegamos no hospital às 5:50 e percebi que no trabalho de parto não existe timidez. Agachei na recepção do hospital de tanta dor. Tive várias contrações enquanto a recepcionista fazia aquela ficha interminável. Fui atendida pelo Dr. Frederico, que chegou logo depois. Eu estava com 4 cm de dilatação e colo 50% apagado.

As contrações foram espaçando. Então fui para sala de parto e descansei um pouco. Cochilava e acordava com contrações e a Rebeca sempre ali do meu lado. As contrações vinham de 8 em 8 minutos. Almoçei as 11:45 hs e depois andei muito pelo hospital, conversei e ri muito entre uma e outra contração. Usei o chuveiro, a bola. Meu esposo ficou no quarto, vinha me ver  e voltava para o quarto. Estava muito ansioso. Fui examinada novamente às 13:30 hs, o dr. Frederico encontrou um colo com 7 cm e sugeriu um descolamento de membranas para regularizar as contrações. Olhei para Beca e ela me encorajou. A tarde seguiu e as contrações vinham de 7 em 7mn. Aproveitei cada momento do meu TP, a companhia da Beca que me ofereceu apoio, carinho, massagens.

Chegou as 17:30 hs e nada! Contrações espaçadas e o Dr. Frederico sugeriu romper a bolsa. Topei e aí as contrações engrenaram de vez! Às 18:10 hs fui para o chuveiro, contrações de 6 em 6 min, tão fortes que a única posição que eu me sentia confortável era sentada na bendita banqueta. Por volta das 18:45 hs, as contrações ficaram ainda mais intensas e de 5 em 5 minutos. Eu estava ajoelhada, no chão do banheiro ouvindo meu corpo. Ás 19:05 estavam de 4 em 4 min. Aí meu Deus! Estava cada vez mais perto! Sentia-me forte e determinada, mal podia acreditar, que estava vivendo algo tão intenso e amoroso ao mesmo tempo!

Ás 20:30 hs estava com contrações de 3 em 3 min. Mal aguentava levantar e já não tinha posição suportável. Então Beca encheu a banheira. Apesar das contrações fortes, consegui relaxar um pouco na banheira, mas a dor já estava imensa. Estava literalmente “ vendo a avó pela greta”. Recebi muito apoio de Beca e Dr Frederico, sugerindo métodos de alívio, vocalizes, etc. Nunca havia sentido algo parecido. Acreditava que pela intensidade ia parir ali mesmo, na água e nos próximos minutos. Não sabia que algumas horas ainda me aguardavam... rsrsrs.

Já eram quase 22 hs e meu médico disse que a água quente havia me relaxado demais, a ponto de espaçar novamente as contrações, apesar da intensidade da dor não ter diminuído. Então saí da banheira e veio uma contração tão forte que não aguentei ficar de pé e não dava tempo de chegar na cama. Dr. Frederico sugeriu agachar e ficar numa posição de acocoramento puxando um lençol. Pensei: “será que essa menina vai nascer no chão?” Meu Deus, que dor! Gente vocês não têm noção da vergonha que eu tenho de ficar exposta, mas quando a dor vem, você nem lembra o que é vergonha.

Quando passou, corri para cama toda molhada e veio outra. Senti sair algo e Beca chamou o Dr, que havia ido se trocar, me examinou e observou um edema e o reduziu. Nesse momento começaram os puxos. Dr. Frederico sempre monitorava o coraçãozinho da Alice. Foram 30 min de puxos. Esse é o momento onde a razão se vai e pedi analgesia, cesárea, qualquer coisa para aliviar. O meu médico sempre  calmo, me incentivando, dizendo que estávamos indo muito bem e já estava quase acabando. Concentrei-me e fiz força, aliás o corpo parecia fazer a força mesmo que eu não quisesse. A natureza é perfeita mesmo! A sala de parto estava numa movimentação só, mais eu não via ninguém. Alice estava chegando...
        
Ela estava em meus braços às 22:47 hs. Tão quentinha, pele a pele. Nunca senti algo parecido! Renasci junto com Alice! Minutos depois ainda estava estática, sem acreditar no que eu tinha vivido, olhando pra ela tão gordinha! Estava chupando os dedinhos. Então dei de mamar. Não conseguia rir ou chorar. Fiquei na verdade processando as últimas horas, até que permiti que levassem ela para pesar e medir. Hoje, 4 meses depois, ainda me pego revivendo meu trabalho de parto. Foi realmente uma viagem alucinante!
        
Não há como deixar de mencionar o quanto o parto natural é melhor. As pessoas sempre perguntam: “e a dor?” Preparei-me para isso, apesar de não ter dimensionado a dor do expulsivo. Mas quando você acha que não vai aguentar, que chegou no limite, já está nascendo e depois você está novinha em folha! Pronta para outra e com seu bem mais precioso nos braços! Rsrsr. Aliás, não no meu caso, porque já tenho 4 filhos!”

 


 

 






 


         Por Merielen Barreto
 
Postagem original: http://maternidadecomamor2015.blogspot.com.br/2015/11/relato-do-nascimento-da-alice-parto.html

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